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Já deu a sua choradinha matinal hoje?

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Já deu a sua choradinha matinal hoje? Eu já! Aliás, esse tem sido um hábito quase diário em minha vida nos últimos anos. É, pois é! Não é um hábito tão novo assim, tampouco uma técnica milenar de rejuvenescimento facial. É simplesmente um ato que se inicia de forma involuntária, seguida de um imenso prazer com pitadas de tristeza profunda. Meu choro matinal é circunstancial. Pode estar atrelado a uma notícia que li ou ouvi, mas geralmente é motivado por pensamentos existenciais dos mais variados. Sabe aquelas longas conversas mentais que temos sobre nossa vida, nossas escolhas, nossos caminhos, o ontem, o hoje e o amanhã? Então, na maioria das vezes essas conversas me levam ao choro. Às vezes por sentir uma tremenda gratidão por algo que estou vivendo ou uma situação que presenciei. Às vezes por uma tristeza profunda sobre o que estou fazendo da minha vida, quem sou e pra onde vou. Mentira! Pra onde vou é algo que pouco me preocupa, mas onde estou - no presente - me apavora! Aliás, nos...

Libido alimentar

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  Paul Cézanne, “Natureza morta com caveira”, c. 1895 – 1900 (Foto: Arte somente via Wikimedia Commons, domínio público) Estou de mal com a comida. Nada demais, apenas mudei minha relação com ela. Faz tempo já e é por isso que o Comer&Sentir deixou de fazer sentido para mim. Conscientemente eu sei de todos os benefícios do alimento, tanto nutricionais quanto sociais e econômicos, mas perdi aquele tesão de lutar, sabe? Não sei nomear ao certo o que isso significa, mas eu simplesmente não vejo mais a comida como o centro de tudo (e isso é um absurdo!) e daí que comer tem sido um ato de necessidade para mim e não mais de prazer. Eu adoro comer bem. Adoro comer bons ingredientes e realmente não tenho mais paladar para o ultraprocessado, mas o que mudou não foi meu paladar, foi minha relação. E o Comer&Sentir diz respeito exatamente a isso: como a gente se relaciona com e pelo alimento. Eu acho isso muito louco e talvez minha psicanalista ache óbvio. Estou aqui na minha ...

Eu faço da arte um espelho

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Eu não tenho histórias para contar. Não sou criativa para inventar. Minhas histórias corriqueiras são banais e não as vejo causando interesse em outras pessoas (elas não causam interesse nem mesmo para mim). Eu tenho tantos desejos que ficam guardados em meu íntimo, que se mostram em meus sonhos e em devaneios que tenho acordada vez ou outra. E as minhas manias íntimas? Sabe aquelas coisas que a gente só faz em pensamento? Tem uma coisa que eu faço na realidade, mas a criação está toda na minha cabeça e eu rio sozinha (penso que essa é uma parte muito, muito, muito positiva na minha existência: eu rio de mim mesma). Pois bem, eu tenho uma que se refere a viver outras vidas. Eu leio um livro ou assisto uma série e fico procurando – e encontrando – características similares entre mim e as personagens. Não importam se são homens ou mulheres, eu fico catucando expressões, comportamentos, pensamentos e começo a construir uma outra história em minha cabeça, com todo esse repertório cap...

Menina Brincante

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Acabei de ler o livro do poeta e amigo de longa data (nos conhecemos há 3 dias) Gil Miri. O título Retalhos de um tempo brincante trouxe um sorrisinho de canto em meu rosto, como se fosse uma intimidade compartilhada. Sei bem do que ele está falando, pois vivi muitas das peraltices poetizadas. Seu livro me fez pensar em como foi diferente a infância de meninos e meninas, que hoje tem 40 e poucos e mais. As brincadeiras de rua que Gil conta me fizeram retornar aos meus momentos de brincar na rua, dos amigos tocando a campainha e perguntado “tia, a Ju pode brincar?” e eu ali, pequenininha e com olhar de cachorro carente, implorando para que ela deixasse. Na maioria das vezes deixava, outras vezes essa liberdade estava condicionada ao dever de casa ou a arrumar alguma bagunça deixada. Mas o que o menino brincante me fez acessar foi de como a infância das meninas é mais chata, mais sem graça, mais sem emoção. Vou trocar o verbo: foi. Hoje em dia eu vejo que isso já mudou um pouco, mas...

Cantos para a vida

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(“Morî’ erenkato eseru’ – Cantos para a vida”, 2020, Daiara Tukano e Jaider Esbell na Pinacoteca do Estado de São Paulo.) Fomos atravessados por uma pandemia. Essa frase virou clichê e já não chama mais a atenção de ninguém. Poderia dizer que já até caiu em desuso. Mas acontece que fomos atravessados por uma pandemia. Quando conto alguma situação da minha vida para as pessoas ou vou remexer em minhas memórias, essa é a referência. "Ah, isso foi antes da pandemia!" e parece que ganha um ar de século passado, de algo muito longínquo. Eu vejo a pandemia como uma fenda no tempo. Como se a terra tivesse dado um sacolejo, igual cachorro quando sai do banho, e tivesse jogado toda a humanidade pra lá e pra cá. Quem sobreviveu foi pq conseguiu segurar firme nos pêlos do totó e agora está, ainda sob uma tontura absurda, reconhecendo em qual parte da vida se localiza. Todas as vidas mudaram. Todo um padrão de vida em sociedade mudou. Não somos mais os mesmos nem olhando de l...

Um dia perfeito

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Eu sinto quando vivem no automático comigo. E eu percebo quando é especificamente comigo. Eu sinto quando não querem de desagradar com muito mais facilidade do que quando querem me agradar. Fica muito perceptível no olhar, na respiração, nos movimentos involuntários do corpo. Em uma resposta de “sim” e “não”, o tom se altera, a voz fica distante, como se não soubesse para quem e para o que está respondendo. Eu aprendi a ler os sinais porque já vivi isso mais de uma vez. Eu aprendi a ler os sinais porque me conheço muito bem a ponto de saber quando sou eu quem estou no automático comigo ou com outras pessoas. O brilho no olhar se vai, as ações são involuntariamente calculadas, tudo tem um tempo, um timing específico, como se fosse necessário cumprir uma tarefa da lista. Racionalmente não há falta de amor e nem de sentimento. Racionalmente está tudo sob controle , ele mesmo, o tal controle dos nossos sentimentos. A doce ilusão que Deus deixou para brincarmos entre nós. E tem u...

A ansiedade está no “lá”

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Quanto mais o tempo passa, mais caixinhas vão sendo criadas para organizar aquilo que somos. Caixinhas mesmo. Cada caixinha, um nome: p rodutivo, p rocrastinador, r esiliente, i novador, l íder, g estor... e por aí vai. Como se não bastassem as caixinhas com nomes, elas vão se atualizando, sofrendo um   upgrade   e recebendo sobrenomes, tais como: 2.0, 3.1, 4.0 etc (sabemos que os números são infinitos). Eu mesma já fui uma mulher que me categorizava. Uma mulher que colocava o nome da caixinha no espelho e traçava rotas para alcançar. Depois, eu acrescentava um número ao lado e me desafiava em nova rota para “chegar lá”. E esse "lá" é sempre lá, num futuro, acessível, porém distante. Sempre no amanhã. A ansiedade impera, a sensação de insuficiência reina, as atitudes sabotadoras tomam à frente. A prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25% , de acordo com a OMS, isso só no primeiro ano de pandemia, portanto, estou longe de estar sozinha nesse cenário, infeliz...