Menina Brincante


Acabei de ler o livro do poeta e amigo de longa data (nos conhecemos há 3 dias) Gil Miri. O título Retalhos de um tempo brincante trouxe um sorrisinho de canto em meu rosto, como se fosse uma intimidade compartilhada. Sei bem do que ele está falando, pois vivi muitas das peraltices poetizadas.

Seu livro me fez pensar em como foi diferente a infância de meninos e meninas, que hoje tem 40 e poucos e mais. As brincadeiras de rua que Gil conta me fizeram retornar aos meus momentos de brincar na rua, dos amigos tocando a campainha e perguntado “tia, a Ju pode brincar?” e eu ali, pequenininha e com olhar de cachorro carente, implorando para que ela deixasse. Na maioria das vezes deixava, outras vezes essa liberdade estava condicionada ao dever de casa ou a arrumar alguma bagunça deixada.

Mas o que o menino brincante me fez acessar foi de como a infância das meninas é mais chata, mais sem graça, mais sem emoção. Vou trocar o verbo: foi. Hoje em dia eu vejo que isso já mudou um pouco, mas não porque temos mais igualdade de gênero, e sim porque todas as crianças ficam com a cara enfiada no Youtube, Tiktok e streaming.

Quando lembro das brincadeiras de rua, as minhas aventuras não era tão emocionantes como as de Gil: raramente subia em árvore (os meninos vão ficar olhando suas partes – eu ouvia), não jogava bola (isso é coisa de menino – eu ouvia), não corria suada pelas ruas (menino é que fica fedido, meninas não brinca assim) e dessa forma, às vezes com palavras ditas; outras não verbalizadas, nós, meninas, sabíamos que algumas peraltices não nos pertencia, mesmo que ficássemos morrendo de vontade.

Para suar brincando na rua, as meninas pulavam elástico ou corda. Andavam de patins e bicicleta rosa com cestinha na frente pra levar a boneca (afinal de contas, a gente tinha que aprender a cuidar de outro ser desde pequena). Nos dias de chuva, nossos encontros entre meninas se resumiam a mostrar e trocar nossos papeis de carta e falar sobre qual menino era mais bonito da turma, ou qual era a nossa paixão da vez. Também mantínhamos diários secretos que só poderiam ser lidos entre a gente, as meninas do nosso clubinho. Naquela época não sabíamos, mas estávamos já em círculo, cirandeiras que somos, trocando nossas intimidades, nossas tristezas, por vezes sentidas entre um ouvir e outro dos pais brigando, ou da falta de dinheiro ou do abandono. Não raro uma amiga estava chorosa pq o pai foi embora e a mãe, que usava bobes nos cabelos, se via sozinha para cuidar da casa, dois filhos e e de si mesma, em um mundo que não foi pensado para ela.

As coisas que Gil Miri conta poeticamente me são próximas porque sou irmã mais nova de um menino que, assim como o poeta, pôde usufruir de todas as alegrias de menino brincante: peão, taco, carrinho de rolimã, empinar pipa, andar de bike (meninas andavam de bicicleta). Também tive a sorte de crescer em uma família com tias que moravam na roça e isso me fez aproveitar muito desse lugar em que o conceito de gênero fica suspenso: a natureza.

Lá, com minhas primas e primos, éramos todos iguais, na maioria das vezes. Minha tia deixava a gente ficar as férias na casa dela, mas a gente tinha que entrar no ritmo da casa: brincar somente após varrer a casa, lavar a louça do café da manhã, deixar as coisas do almoço no esquema e as almofadas da sala arrumadas. Mas estávamos em 5 ou 6 crianças, então tudo isso era rápido de fazer e tudo o que a gente queria era ir pro mato logo.

Lá a gente andava, conversava, subia em árvores, roubava fruta do pé vizinho, brincava com galhos, comíamos manga-coquinho rasgada no dente e chupávamos cana. Lá a gente andava com a bicicleta velha que um dos primos tinha ganhado e nos dividíamos no tempo, para que todos pudessem aproveitar, mesmo que já houvesse hierarquia entre quem podia ficar mais ou menos tempo (aí voltava o gênero e o etarismo, já que os meninos mais velhos sempre davam um jeito de ganhar da gente – e conseguiam).

E lembrar de tudo isso ao ler esse delicioso livro me fez, mais do que pensar, sentir, que a gente carrega a infância com a gente, independente de como ela tenha sido. Quando crescemos somos quase que obrigados a conversar com nossa criança interior para entender tantos comportamentos que não nos permite ser quem realmente somos.

Com este livro entendi que sou o que sou hoje por conta de uma infância que tenho poucas lembranças, como um presente da minha mente, para que eu me protegesse e crescesse “sem olhar para trás”, pois se eu tivesse essa leitura consciente àquela época, talvez eu não teria me tornado essa mulher forte, independente e tão, mas tão sensível.

Chegou a hora de eu abraçar minha criança, de largar a chupeta por conta própria e não deixar mais que minhas duas mães determinem quando poderei crescer.

Pra dominar a arte

De catar pipas cortadas

Precisa conhecer

O caminho dos ventos

E decifrar seus

Repentinos silêncios

Poema “Caminho dos ventos”, de Gil Miri.

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