Já deu a sua choradinha matinal hoje?
Já deu a sua choradinha matinal hoje? Eu já!
Aliás, esse tem sido um hábito quase diário em minha vida nos últimos anos. É, pois é! Não é um hábito tão novo assim, tampouco uma técnica milenar de rejuvenescimento facial. É simplesmente um ato que se inicia de forma involuntária, seguida de um imenso prazer com pitadas de tristeza profunda.
Meu choro matinal é circunstancial. Pode estar atrelado a uma notícia que li ou ouvi, mas geralmente é motivado por pensamentos existenciais dos mais variados.
Sabe aquelas longas conversas mentais que temos sobre nossa vida, nossas escolhas, nossos caminhos, o ontem, o hoje e o amanhã? Então, na maioria das vezes essas conversas me levam ao choro. Às vezes por sentir uma tremenda gratidão por algo que estou vivendo ou uma situação que presenciei. Às vezes por uma tristeza profunda sobre o que estou fazendo da minha vida, quem sou e pra onde vou. Mentira! Pra onde vou é algo que pouco me preocupa, mas onde estou - no presente - me apavora!
Aliás, nos últimos anos - os mesmos em que o choro matinal tem se tornado rotina - não viver o presente tem me apavorado e confesso que esse tem sido o maior motivo dos meus choros mais recentes.
Me sinto na contramão do que é praticado no dia-a-dia, onde pensar no futuro, planejar o amanhã e seguir o passo-a-passo para "chegar lá" tem sido usado como fórmula do sucesso. Até 2021 eu era essa pessoa, mas de lá pra cá eu reduzi drasticamente meu planejamento e passei a focar no que estou fazendo agora. Isso tem sido muito libertador e doloroso. Libertador porque, finalmente, minhas crises de ansiedade estão reduzidas a quase zero. Doloroso porque esse é um caminhar solitário e balancear meu momento com o momento diferente de outras pessoas que convivo é uma estratégia desafiadora.
Penso com muita frequência o seguinte: levei tantos anos, tanto investimento de tempo e dinheiro em terapia e autoconhecimento para me sentir no meu melhor momento de vida, porque devo conviver com comportamentos que não me acompanham? Desavisados dirão que isso é egoísmo. Analisados dirão que esse é um dos dilemas da vida. Espiritualizados dirão que altruísmo e abnegação nos aproxima do divino. Eu mesma, não tenho resposta alguma e levo em consideração todas elas. É amor? É altruísmo? É dúvida de si? É insegurança? É carência? É medo? É resiliência? É força? É desprendimento de si? Ou simplesmente é, porque é?
Esses pensamentos me fazem chorar. Mentalmente, crio uma lista de problemas, traço uma linha vertical e crio uma nova lista com as possíveis soluções para cada um deles. Mentalmente, faço um agrupamento e uma avaliação dos insuportáveis, dos toleráveis e daqueles que ainda não sei como classificar. Esse exercício mental me faz chorar. Porque qualquer escolha impacta em uma rejeição. Assim como não escolher, impacta em exaustão. Enquanto esse dilema existencial acontece, eu choro.
Entro em luto antes da morte acontecer. Enlutada eu fico por dias, semanas, meses, anos. E vivo um luto multicultural: às vezes só quero usar preto e ficar no escuro em silêncio, às vezes uso branco e fico contemplativa, às vezes me visto colorida e faço uma festa. Mas o luto está lá, acontecendo. Às vezes estou enlutando por algo que já reviveu, às vezes tô enlutando por algo que não faço ideia do que seja. E choro de tristeza e de alegria. Porque o luto é sempre o ciclo, ele é sempre a mesma sequência de vida - morte - vida.
Nos meus choros matinais, me despeço ou festejo sempre alguma coisa em mim e raramente sei do que se trata. Nos meus choros matinais, uma leveza se apossa do meu peito, amenizando angústias que nem parecem minhas e eu só dou conta de que existiam pela leveza que me encontro minutos depois de chorar.
Eu sou melancólica por natureza e desde muito criança tenho pensamentos existenciais. Sofro de uma tristeza sei lá de onde, que por algum tempo ela escolhe não aparecer, mas mora ali, bem no fundinho de mim. Antigamente ela aparecia em rompantes de raiva, euforia, gastança, mau humor, mas, atualmente, ela vem em forma de choro matinal, se faz presente e se vai em águas salgadas que se evaporam, tal qual secura de lagos de águas paradas que o aquecimento global tem feito desaparecer. O bom é que toda água evaporada um dia vira chuva que molha, que rega, que nutre e frutifica.
Toda manhã eu choro para frutificar.

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