Cantos para a vida
(“Morî’ erenkato eseru’ – Cantos para a vida”, 2020, Daiara Tukano e Jaider Esbell na Pinacoteca do Estado de São Paulo.)
Fomos atravessados por uma pandemia. Essa frase virou clichê e já não chama mais a atenção de ninguém. Poderia dizer que já até caiu em desuso.
Mas acontece que fomos atravessados por uma pandemia.
Quando conto alguma situação da minha vida para as pessoas ou vou remexer em minhas memórias, essa é a referência. "Ah, isso foi antes da pandemia!" e parece que ganha um ar de século passado, de algo muito longínquo.
Eu vejo a pandemia como uma fenda no tempo. Como se a terra tivesse dado um sacolejo, igual cachorro quando sai do banho, e tivesse jogado toda a humanidade pra lá e pra cá. Quem sobreviveu foi pq conseguiu segurar firme nos pêlos do totó e agora está, ainda sob uma tontura absurda, reconhecendo em qual parte da vida se localiza.
Todas as vidas mudaram. Todo um padrão de vida em sociedade mudou. Não somos mais os mesmos nem olhando de longe e isso transpassa classe social.
Nunca estivemos no mesmo barco (essa frase foi mais um clichê no início da pandemia) e tampouco sofremos em pé de igualdade, mas uma coisa foi unânime: ninguém nesse planeta é mais o mesmo.
As crianças que foram concebidas ou que nasceram na pandemia são completamente diferentes das crianças de antes. Comportamentos, hábitos, relações, absolutamente tudo foi afetado.
Vida pessoal, interação social, crenças, alimentação, vida coletiva, absolutamente tudo foi afetado.
Desenvolvimento, trabalho, estudos, ganha-pão, absolutamente tudo foi afetado.
E vivemos relações de pandemia. Relacionamentos que nasceram no pseudo anonimato da máscara, que nasceram de um esgotamento imenso do isolamento social, que frutificaram na dor absurda da solidão. Pessoas e mais pessoas que se fortaleceram um no outro em um dos períodos mais difíceis da história, em uma época em que a carência e o medo do abandono estava sempre à espreita, prestes a tocar a campainha.
Período em que deixamos de ter uma vida dividida em caixinhas, com papeis e perfis super definidos. Onde vida íntima, pessoal, e de trabalho se materializaram no mesmo ambiente e nos fizeram enxergar com uma transparência dolorosa que somos um e somos todo, porém, desintegrados.
Essa semana foi decretada o fim da urgência sanitária da Covid-19 e isso significa que, mundialmente, não estamos mais em um estado de pandemia. Imageticamente, podemos circular com mais segurança, menos medo de aglomeração e ambientes fechados. Mas nós nunca mais seremos os mesmo.
O afrouxamento do isolamento social diretamente relacionado com a imunização em massa já havia nos colocado em situação de convívio novamente cerca de 1 ano e meio. Nossos medos - por ora - foram entendidos, ou talvez, apenas engolidos pela necessidade de reconstrução de uma sociedade, uma família e de um eu completamente destroçado.
Não gosto mais das mesmas coisas. Não gosto mais das mesmas pessoas. Não gosto mais dos mesmos lugares.
Situações que antes eram denominadas "minha cara" hoje não fazem o menor sentido.
Minha cara, inclusive, não tem feito mais o menor sentido, pois ela mudou tanto. Envelheceu. Entristeceu. Agradeceu, pois só envelhece quem está vivo. E eu sobrevivi. Eu sou uma sobrevivente da Pandemia do Corona vírus e mereço ser ouvida.
Me tornei insignificante demais diante de um vírus microscópico e letal e agora que ele foi derrotado, eu mereço sair do anonimato. Mereço sair de trás das telas e encarar o mundo, encarar a vida, conhecer outros céus, andar por outras ruas, cumprimentar outras pessoas. Eu mereço desfilar com meu novo eu.
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