Um dia perfeito


Eu sinto quando vivem no automático comigo. E eu percebo quando é especificamente comigo. Eu sinto quando não querem de desagradar com muito mais facilidade do que quando querem me agradar.

Fica muito perceptível no olhar, na respiração, nos movimentos involuntários do corpo. Em uma resposta de “sim” e “não”, o tom se altera, a voz fica distante, como se não soubesse para quem e para o que está respondendo.

Eu aprendi a ler os sinais porque já vivi isso mais de uma vez. Eu aprendi a ler os sinais porque me conheço muito bem a ponto de saber quando sou eu quem estou no automático comigo ou com outras pessoas.

O brilho no olhar se vai, as ações são involuntariamente calculadas, tudo tem um tempo, um timing específico, como se fosse necessário cumprir uma tarefa da lista.

Racionalmente não há falta de amor e nem de sentimento. Racionalmente está tudo sob controle, ele mesmo, o tal controle dos nossos sentimentos. A doce ilusão que Deus deixou para brincarmos entre nós.

E tem uma outra característica, também, que vem da minha parte essa: quando eu percebo, sinto, pressinto e intuo que algo assim está acontecendo, promovo alguma ação super diferente, algo bem fora do nosso comum, na minha tentativa ilusória de despertar algo novo, de acordar, de ver o brilho, de sentir um aroma diferente. Eu já vivi isso. E acabou na sala de um consultório de terapia em dupla.

Eu também emano sinais de insatisfação: reclamações de coisas triviais é minha sinalização mais óbvia e frequente. Talvez não percebam, mas eu percebo. Eu sei que quando começo a me incomodar com pequenez, é porque tem algo muito maior me atravessando e que não consigo dizer claramente.

Dizem que a gente sabe quando vai morrer.

Gosto de pensar que, ao aceitar a finitude e a impermanência, todas as coisas acabam e começam quando precisam acontecer. Nossa interferência é apenas nosso ego querendo se fazer presente.

Hoje eu permito ir, assim como permito ficar. Hoje vou meditar para acalmar essa aceleração. “Podem até maltratar meu coração, mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”

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