Libido alimentar

 

Paul Cézanne, “Natureza morta com caveira”, c. 1895 – 1900 (Foto: Arte somente via Wikimedia Commons, domínio público)

Estou de mal com a comida.

Nada demais, apenas mudei minha relação com ela. Faz tempo já e é por isso que o Comer&Sentir deixou de fazer sentido para mim.

Conscientemente eu sei de todos os benefícios do alimento, tanto nutricionais quanto sociais e econômicos, mas perdi aquele tesão de lutar, sabe? Não sei nomear ao certo o que isso significa, mas eu simplesmente não vejo mais a comida como o centro de tudo (e isso é um absurdo!) e daí que comer tem sido um ato de necessidade para mim e não mais de prazer.

Eu adoro comer bem. Adoro comer bons ingredientes e realmente não tenho mais paladar para o ultraprocessado, mas o que mudou não foi meu paladar, foi minha relação. E o Comer&Sentir diz respeito exatamente a isso: como a gente se relaciona com e pelo alimento. Eu acho isso muito louco e talvez minha psicanalista ache óbvio.

Estou aqui na minha sala, observando a quantidade de livros que tenho que falam sobre a comida. Todos com cunho sociológico e filosófico – que é a linha que mais gosto de aprofundar – e sinto um orgulho imenso do que construí nesse aspecto. Todos esses livros, estudos, podcasts, contatos com pessoas variadas me levaram por caminhos novos e interessantes, mas que agora não tem me tocado com a mesma ênfase que antes. É nesse ponto que eu fico com uma interrogação enorme. Será que tudo o que faço precisa ter esse tesão todo? Até que ponto isso é sinônimo de entrega e dedicação ou é apenas uma tremenda dificuldade em lidar com o comum, com o tédio, com o medíocre, como já escrevi tantas vezes por aqui?

Estou com vontade de sentir prazer novamente nesse assunto, mas simplesmente, o desejo não vem. É como uma falta de libido. Você já passou por isso? Sentir falta de libido? Sua cabeça tem plena consciência de como tudo funciona, dos benefícios, das necessidades físico-químicas de liberação de hormônios do prazer, mas simplesmente o desejo desaparece. Pensar em se despir parece um trabalho enorme e fica mais gostoso virar para o lado e dormir bem quentinha.

É isso que tenho sentido em relação a comida. Uma redução absurda na libido alimentar. Sinto fome e sou exigente com minhas escolhas, mas não quero mais ter o trabalho de fazer e pensar sobre comida. Discussão sobre as questões sociais em torno da comida?! Não entro mais! Me parece tão óbvio e tão intencionalmente contraditório o que se faz com a comida commodity que perco o tesão de entrar nessa briga. Me encosto na certeza de que existem grupos engajadíssimos nessa frente de batalha (sim, é uma batalha!).

Aliás, pegando o gancho da relação comida e libido, parte da diminuição do meu desejo alimentar está relacionado a um contato com a realidade política alimentar que simplesmente me desanima. Tenho em mim uma deusa revolucionária que acredita que a gente pode e consegue tudo quando estamos unidos em prol de uma causa. Por isso, me juntei a pessoas que dizem ser assim também e que tem a comida como causa comum. Como de costume, senti uma grande vibração e empolgação inicial, que foi massacrada pela realidade que vivi: acadêmicos e funcionários públicos com desejo genuíno de melhorar a qualidade alimentar e reduzir e extinguir a situação de fome, mas apenas para concluir sua tese de doutorado ou para se manter no cargo de confiança que paga seus boletos. A luta mesmo, o fazer e acontecer, o se movimentar para realizar fica em segundo plano. Fica para um depois. Passei meses julgando esse comportamento até entender que é assim que funciona enquanto a força do capitalismo determinar nossas ações e sentimentos. Todas essas pessoas têm sonhos e necessidades que dependem do dinheiro para se realizar e aí, qual o problema de se conseguir esse dinheiro atuando com a causa que lhe toca o coração? Nenhum! Exceto pelo fato de não mudar muita coisa, de não movimentar de fato uma estrutura. Claro, estou falando de um aspecto mais amplo, pois existem muitas ações de movimentos sociais e políticos que realmente transformam a vida de uma população – não posso ser leviana. Mas no final das contas, essas transformações acontecem porque há um desejo político de se alcançar ou manter um status. Sei que lendo assim, parece simplório demais, mas a verdade é que é.

Quando a comida começa a perder a magia para mim, não vejo mais razão para brigar por ela. E isso não tem nada a ver com a natureza, tá?! Está relacionado diretamente as pessoas que manipulam esses alimentos, que comercializam e produzem.

Comida afetiva. Comida orgânica. Comida de Verdade. Em essência esses termos não deveriam nem existir. Comida é comida. E isso deveria bastar. Mas para valorizarmos o que nos mantém vivo, precisamos adjetivar com ênfase, agregando o valor capitalista que aprendemos a sentir. O capitalismo é tão absurdo que sai do plano da matéria e se embrenha em nossos sentimentos. Você já tentou tomar um café da manhã afetivo hoje em dia? E um almoço orgânico? Qualquer refeição em que os pratos sejam feitos sem ultraprocessados, já tentou? Com certeza já e aposto que saiu arrependido. Saiu questionando o investimento realizado, já que a comida era realmente boa, saborosa e gostosa, mas que não valia o que foi cobrado. Aposto que passou os minutos seguintes buscando justificativas para o valor gasto: os alugueis estão caros, os funcionários custam caro, o uniforme, a louça, os ingredientes que são de qualidade e precisam vir de longe. Questionou sua posição de privilégio e que ao gastar esse valor desproporcional em uma comida afetiva, orgânica e de verdade é uma maneira de devolver à sociedade os benefícios que sempre teve e vai continuar tendo por ter uma condição social muito melhor que a maioria esmagadora de 90% da população.

Se você nunca saiu com esses pensamentos, é mais privilegiado ainda! Eu sempre saí. E mais do que pensamento, saí revoltada com o contexto e comigo mesma. Porque comida afetiva para mim é a que provoca afeto, seja considerado bom ou mal. Comida afetiva me lembra situações agradáveis, mas também lembram momentos de dor – o marketing capitalista nos fez acreditar que afeto é sinônimo de coisa fofa – ai que preguiça!

Finalizando esse texto, estou percebendo que o que sinto não é necessariamente uma falta de libido alimentar, mas sim, raiva. Estou com muita raiva de como nossa vida se tornou um negócio, um cifrão e uma matéria que faz parte da balança comercial do mundo. Raiva e comida são duas coisas que não combinam e por este motivo me encontro em um período de jejum. Estou em uma fase de dieta restritiva sobre o tema alimentação, negando digerir o afeto, o orgânico e a verdade que querem nos fazer acreditar que tem um preço. E sinto que esse texto não se encerra aqui, mas por ora, vou parar.

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