Eu faço da arte um espelho
Eu não tenho histórias para contar. Não sou criativa para inventar. Minhas histórias corriqueiras são banais e não as vejo causando interesse em outras pessoas (elas não causam interesse nem mesmo para mim).
Eu tenho tantos desejos que ficam
guardados em meu íntimo, que se mostram em meus sonhos e em devaneios que tenho
acordada vez ou outra.
E as minhas manias íntimas? Sabe
aquelas coisas que a gente só faz em pensamento? Tem uma coisa que eu faço na
realidade, mas a criação está toda na minha cabeça e eu rio sozinha (penso que
essa é uma parte muito, muito, muito positiva na minha existência: eu rio de
mim mesma).
Pois bem, eu tenho uma que se
refere a viver outras vidas. Eu leio um livro ou assisto uma série e fico
procurando – e encontrando – características similares entre mim e as
personagens. Não importam se são homens ou mulheres, eu fico catucando
expressões, comportamentos, pensamentos e começo a construir uma outra história
em minha cabeça, com todo esse repertório capturado de fantasias alheias.
Tô aqui pensando enquanto escrevo
e acredito que é isso que me faz gostar tanto de ficção, romances e dramas, porque
eles tem licença poética para criar sobre o que está posto. É óbvio, né?! Mas
eu sou uma pessoa óbvia mesmo.
Atualmente estou assistindo uma
série novaiorquina de uma realidade absurdamente distante da minha classe
social, do meu ambiente de trabalho e da minha conta bancária, mas em termos de
existencialismo, eu poderia dizer que muitas das falas das personagens poderiam
ter sido tiradas da minha cabeça. Daí, quando encerra o episódio, eu geralmente
dou uns minutinhos para engatar o próximo, por que passo um scanner em tudo o
que vi e começo a criar conexões comigo. Às vezes corro no meu guarda-roupa
para ver se tenho algum look que pode ser inspirado na série e já separo,
mentalmente, a ocasião que vou provocar em minha vida só para poder usá-lo.
E assim vou criando Julianas,
brincando com o meu imaginário e me divertindo com o imaginário de tantas
outras pessoas que fazem arte. Veja bem, não faço imitação. Não quero ser
determinada personagem, eu apenas quero encontrar em mim e nas minhas coisas
características que admiro no outro. Falando assim, percebo que faço da arte um
espelho. Gostei disso. Eu faço da arte um espelho e não deve ter nenhuma
inovação nessa minha percepção, mas como já disse anteriormente, sou uma pessoa
óbvia mesmo.
A questão é que viver assim,
fantasiando no meu mundo e adaptando para a minha realidade, tem funcionado tão
bem para minha psiquê judiada por traumas de abandono, preconceitos raciais e
abusos de gênero. Porque me experimentar sob outras perspectivas que sozinha eu
não teria a mesma energia, fortalece todas as pessoas que coexistem dentro de
mim. Eu testo ser mística, executiva, menina, intelectual, suburbana,
musicista, andarilha. Uso roupas diferentes, acessórios novos, me conecto com
pessoas distantes do meu círculo convencional de relacionamentos e daí vivo na
pele pequenas situações inusitadas e divertidas – ou não – mas que depois viram
meu próprio conteúdo de autoanálise.
Depois que brinquei daquela
experiência (sim, eu me sinto brincando), perspectivas se abrem sobre mim. É
muito interessante, porque faço uma triagem do que foi legal ou não, do que eu
topo incluir na minha vida ou não, do que só valeu a experiência e não merece
repeteco, muito menos uma incorporação no meu dia a dia. Eu brinco. E brinco de
um jeito muito sério (?!).
Meus amigos mais íntimos e de
longa data já devem ter percebido esse meu comportamento. Não sei se todos
entendem ou sacam o que realmente acontece, mas devem notar que às vezes estou
agindo de uma forma estranha ao meu habitual. Veja só, recentemente reli “O
diário de um mago”, do Paulo Coelho – dispensa apresentações. Ele faz uma
peregrinação imensa que provoca diversas discussões mentais entre outras tramas
na história (reais, inclusive). Eu não me vi fazendo o Caminho de Compostella e
nem tenho esse desejo, mas fiquei com muita vontade de fazer uma trilha em meio
a natureza, mas uma vontade imensa! Bom, como acredito que na vida tudo se
conecta, na mesma semana um amigo de longa data me manda uma mensagem dizendo
que estava organizando uma trilha em um morro e me perguntou se eu tinha
interesse. A distância era bem absurda para uma sedentária como eu, mas pô, eu estava
ali, imbuída da emoção do livro, querendo muito viver uma experiência de
caminhar em silêncio e me observar por fora e por dentro. Fui.
A trilha foi realmente fora da
minha realidade, mas eu já estava ali e não tinha como voltar. A lição era
seguir em frente. Chegamos ao cume, fizemos uma ioga e
passamos algumas horas contemplando a paisagem (que era linda mesmo!). A volta
foi um horror! Minhas coxas não tinham mais força para sustentar a caminhada,
eu inchei tanto que minha bermuda agarrou no meu corpo de um jeito que parecia
fita isolante. Tudo doía. Quando finalmente chegamos ao lugar que deixamos
nossos carros, caiu um temporal que o vento arrastava a gente na rua. Além de
estar inchada e com estafa muscular, estava encharcada. Entrei no carro assim
mesmo e dirigi 40km (depois de ter caminhado 14km entre subida e descida do
morro). Cheguei em casa rindo de tudo. Mal conseguia ficar de pé para o banho.
Deitei no sofá que não conseguia me movimentar. Dias depois, duas unhas do meu
pé começaram a descolar. Meus músculos estafados doeram por semanas (sem
exagero). E eu ria. Eu contava para todo mundo da minha experiência ingênua,
mas divertida. Quando comento que tirei tantos aprendizados dessa loucura,
alguns dizem que estou inventando só pra não admitir que foi um erro. Mas não
foi um erro! Foi uma escolha! Eu estava disposta a pagar o preço para viver
algumas coisas que senti ao ler o livro. E consegui! E esse era o meu maior
motivo de felicidade e de diversão ao relembrar essa história.
Racionalmente eu fiz tudo errado e minha psicanalista me perguntou por que me diverti tanto com uma atitude que gerou um bocado de dor. Levei dias pensando nisso e até me gerou um pouco de tristeza, mas que depois eu entendi que eu não estava sentindo prazer na dor, eu estava sentindo prazer na escolha, na autonomia de fazer algo inusitado naquele momento e que abriu espaço para eu refletir sobre tantas coisas íntimas que não estava conseguindo fazer do meu sofá, do meu carro, da caminhada no parque. Encontrei respostas, sem precisar me tornar “mago”, mas que só foram possíveis quando estava ali, em completo silêncio, sentindo meu corpo mal preparado e minha roupa inadequada para a ocasião e com minha determinação em realizar algo que me havia proposto (mesmo que na noite anterior eu tenha ido dormir de madrugada, tomado vinho e tenha recebido a visita inesperada do meu irmão com a esposa grávida e a filha pequena, para se hospedar em casa). Eu não permiti que nada disso me impedisse de realizar o que eu estava com vontade e que dizia respeito só a mim. Sério, eu nem lembro da dor de quando a jornada terminou.
Acontece que, passado o trauma
muscular, foi quando tomei a decisão de levar à sério minha saúde, me matriculei
na academia e iniciei um processo lento de adaptação aos exercícios rotineiros,
ajustei minha alimentação, fiz exames para saber sobre meus hormônios,
vitaminas e minerais e iniciei um processo de suplementação que tem me trazido
excelentes resultados. Cito aqui as consequências externas dessa minha
“peregrinação”, enquanto a consequência interna maior foi a de não desistir de
mim. Eu não desisti de ir à trilha, mesmo com tantas adversidades na noite
anterior; eu não desisti de cumprir a subida e a descida, mesmo com muita dor e
podendo chamar um carro de ajuda, porque estava enfrentando, internamente, uma
baita discussão sobre o quanto abro mão de mim para os outros - e eu queria
terminar essa briga enquanto caminhava. E, também, eu estava me divertindo ao sentir prazer
(agora sim!) em brincar de viver algo que considerei tão interessante em uma
personagem de livro.
Desse dia até hoje (isso tem 5
meses) mudei tanto meu comportamento comigo mesma! A academia continua firme e
forte, com uma frequência ótima para meu condicionamento físico e meu
bem-estar, minhas necessidades passaram a ser atendidas com prioridade,
independente da necessidade do outro. Minhas unhas estão horríveis, porque não
caíram de vez, mas estão em processo de troca e isso me faz ver o tempo que
nossas células levam para se regenerar – e se regeneram! Entendi claramente que
para fazer uma trilha tem que ter roupa certa, tênis adequado e que isso não se
trata de estar na moda. Entendi que eu não posso mais simplesmente sair fazendo
o que tenho vontade, mas que posso fazer tudo o que tenho vontade, desde que me
dê o tempo necessário para construir as bases. Tudo isso é óbvio e, talvez você
que esteja lendo saiba disso sem precisar passar por essas coisas, mas como
disse duas vezes por aqui, eu sou uma pessoa óbvia.
E é assim que sou. Não aprendi
isso num livro, nem em curso e nem em filme, mas eu simplesmente gosto de
refletir sobre minhas experiências, gosto de testar minhas vontades e aproveito
a arte para abrir minha mente para novas situações.
Eu comecei esse texto dizendo que
não tenho histórias para contar, muito menos histórias interessantes, mas
encerro com a cabeça cheia de lembranças sobre cosias que já fiz e que são
dignas de serem compartilhadas. Talvez seja isso. Talvez eu ainda precise da
arte para olhar para mim com diversão. Essa é minha vida e eu tô muito disposta
a vivê-la.


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