Eu devia estar alegre e satisfeito


Medíocre.

Nos ensinaram que ser medíocre é ruim. No dicionário Oxford, consta como "diz-se de ou pessoa pouco capaz".

Acho de uma injustiça sem tamanho reduzir o medíocre a falta de capacidade.

Para algo ou alguém ser considerado medíocre, é preciso existir uma comparação e um julgamento. Deve existir um parâmetro pré-definido que diz que algo é bom ou não e que estar perto ou distante disso diz sobre o grau de mediocridade.

Entendo que para algumas coisas, essa análise faz sentido e é até mesmo necessária, mas para outras, ou para quando se trata de pessoas, é bem injusto criarmos essas caixas de certo e errado. Bem, essa reflexão toda iniciou quando eu estava ouvindo pela enésima vez a música Ouro de Tolo. Ela, que tantas vezes me inspirou a não ficar "sentado no trono de um apartamento esperando a morte chegar", que me impulsionou a agir e me fez pensar que não devo me contentar com as coisas simples da vida, como se elas fossem poucas, hoje me fez imaginar que, se Raul estivesse vivo, talvez ele "desdiria" aquilo tudo que ele disse antes.

Se tem algo bom nessa vida, é chegarmos a conclusão que existe felicidade no cotidiano. A previsibilidade pode ser uma benção, uma paz, uma tranquilidade necessária para o modo de vida que implementamos no mundo. E que essa previsibilidade pode gerar um conforto tão bom, que libera espaço para pensarmos e agirmos em coisas fora da rotina.

Veja bem, uma criança precisa de rotina, dizem os especialistas e todas as pessoas que sabem o que é cuidar de uma. A rotina traz segurança para a criança, ela não se sente desamparada, ela sabe, inclusive, que pode se atrever a dar os primeiros passos, porque, caso ela caia, basta chorar que terá alguém para cuidar. A criança se sente protegida quando sabe que todo os dias, depois da soneca após almoço, ela vai brincar no parquinho. Ela não tem ansiedade com nada, porque sabe que todos os dias, depois que almoçar e descansar, ela terá um momento de plena felicidade em encontrar os mesmos amigos e os mesmos brinquedos que gosta, exatamente lá, esperando por ela.

Aí a criança cresce e a vida social e familiar ampliam seu repertório de "coisas que ela precisa fazer antes de morrer", ou, pior ainda, "coisas que ela precisa fazer para não morrer", sendo esse um fato já muito bem definido na existência humana: a gente nasce e morre, invariavelmente. Pronto! O chip da ansiedade está instalado.

Começa uma avalanche de comparações, de "to do list", de obrigações, de coisas e pessoas que é preciso ter e/ou se relacionar para ser considerado alguém de sucesso ou medíocre. Aquela paz, aquela tranquilidade de saber o que vai acontecer e poder escolher se vai querer desbravar algo novo no parquinho ou se vai ficar com os mesmos brinquedos todo dia, simplesmente não são mais permitidas. 

Não há escolha, mesmo que digam que sempre há. Não há! Porque se escolher fazer sempre as mesmas coisas e os resultados te fizerem bem, você será julgado de medíocre. E aí, mesmo contra sua vontade, você vai vestir a roupa do desbravador e vai escarafunchar coisas novas e, nesse processo, vai se deparar com situações bacanas, mas também vai conviver com uma vozinha interna perguntando: "por que raios está fazendo isso?" ou "que raios está fazendo aqui?". Mas vai seguir, vai desbravar, vai conquistar, vai ser premiado, vai ser ovacionado e vai conseguir comprar o Corcel 73.

Acontece que a vozinha é tão forte, tão forte, que um dia (e não um belo dia), você vai se perguntar por que não está feliz com o Corcel 73, por que se sente tão vazio, por que parece que quanto mais desbravou, menos encontrou? E você vai querer ser feliz com o Corcel 73, com o domingo no parque, com dar pipoca aos macacos. Vai perceber que lá no fundo, lembrando dos dias em que se sentia mais feliz era justamente por saber que descansaria após o almoço e brincaria no parquinho de sempre, porque a cada dia ele era uma nova aventura em sua cabeça. Ter a estrutura física igual não significava que ele era o mesmo todos os dias. 

Me lembrei de um desenho mais recente, dos anos 2000, onde as personagens cantavam "temos um mundo inteiro no nosso quintaaaaallll". Era isso! Era isso! O lugar era o mesmo, mas quem fazia ser diferente era a criatividade, a imaginação, a ludicidade, a vontade de criar algo novo e gostoso a cada tarde.

Aí veio essa coisa sobre a mediocridade adulta, sobre não se contentar "com pouco". Que pouco?! É muito! Você não faz ideia do tamanho que era esse quintal! De todas as possibilidades criadas naquele ambiente seguro e que deram sustento para, hoje, questionar a mediocridade. 

Todo mundo cita Manoel de Barros sobre o "Meu quintal é maior que o mundo" e o enaltece pela simplicidade que ele sempre retratou sua vida cotidiana, conectada à natureza, se comparando sempre com os bichos, principalmente com os insetos, seres minúsculos e, muitas vezes, perturbadores. Ninguém chama Manoel de Barros de medíocre, mas o que ele construiu como arte na vida foi enaltecer a mediocridade, a simplicidade do cotidiano, a complexidade do dia-a-dia. Ele colocou uma lupa enorme nisso que parece que só tem valor por ser classificado como arte. Se ele não tivesse transformado isso em poesia, seria julgado como louco, atrasado, incapaz e que fica aquém de outros. 

Parece que só através da arte nos é permitido existir como realmente somos.

Eu vou sentar no trono do meu apartamento, escancarar minha boca cheia de dentes e esperar a morte chegar. Vou fazer tudo isso me divertindo com a espera, olhando do cume do meu mundo a dança dos discos voadores que me lembram que não estamos sós e que agirmos como se fôssemos mais especiais que outros é uma atitude muito mesquinha.

Quero ser comum, modesta e pequena, pois dessa forma consigo voltar à mim mesma e enxergar a magnitude do meu ser, que pode ser tão transformador e caótico como um inseto de Manoel de Barros.

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